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Eliane
Araujoh - Como surgiu a inspiração para escrever o
livro "Fernão Capelo Gaivota"?
Richard Bach -
Temos muitos níveis dentro de nós. Esta história foi
me dada por um desses níveis. Cada um tem uma história
para contar. Eu estava procurando quem eu era e a
história apareceu para mim como um filme diante de meus
olhos. Eu vi o filme brilhante e escrevi tão rápido
quanto pude, mas num determinado momento o filme parou e
uma parede estava em minha frente. Foi como este nível
tentasse dizer que eu não estava inventando esta
história, que esta história não era minha. Ela estava
sendo dada para mim por alguém. É como se eu ouvisse:
"Se você acredita que você está inventando esta
história tente terminá-la." Eu não podia, eu não
conseguia terminar. Oito anos depois, muito longe de onde
eu estava quando a história foi me dada pela primeira
vez, às 5 horas da manhã eu acordei. Havia tido um
sonho que era o final desta história. Acordei, fui até
a máquina de escrever e escrevi o final e pensei:
"Isto é o que acontece! Este é o final da
história!". Tive de encontrar este presente sozinho
(o final da história) para depois poder compartilhar com
outras pessoas, com outras gaivotas.
Eliane de Araujoh -
Qual foi a obra que você mais gostou de escrever?
Richard Bach -
Cada história tem um tempo e um lugar. Cada uma tem um
presente para dar. Cada escritor tem que pensar:
"Qual é a magia que nos chama a escrever estas
histórias?". Quando ele escreve, fica contente com
ele mesmo, e o produto desta felicidade é também
compartilhar este presente com outras pessoas que tem as
mesmas idéias. Quando escritores escrevem, eles escrevem
suas aventuras. E há pessoas que compartilham estas
aventuras com eles quando lêem o que foi escrito. Cada
uma das histórias que eu escrevi é uma aventura que eu
vivi, seja em ficção ou não, verdade ou não. E eu
compartilho estas aventuras com pessoas que têm as
mesmas idéias que eu.
Eliane de Araujoh -
Em seu livro "Um" você fala de suas experiências fora do corpo e da
busca da espiritualidade.
Como você sente a espiritualidade em sua vida?
Richard Bach -
Há uma família que está espalhada por todo o mundo,
que tem uma curiosidade de saber que há algo mais além
do mundo que podemos ver. Tem que haver algo mais. Esta
curiosidade é a espiritualidade, a busca. Somos
criaturas de espírito, amor e luz. A minha experiência
pessoal é saber que no mundo há mais do que podemos
ver. Eu só tive experiências fora do corpo 2 ou 3
vezes. Experiências de felicidade, de não necessitar do
corpo para expressar vida. Somos mais que o nosso corpo.
Esta experiência não é algo que eu possa controlar. Eu
não posso fazer isso quando eu quero. Aconteceu e eu
não sei como e porque, mas aconteceu. Com isso eu pude
experimentar o que é não necessitar do corpo. Voar é
outro meio de eu buscar a espiritualidade e de entender
que há mais no mundo do que isso que vemos. Voar é uma
metáfora. Temos que confiar naquilo que nós não
podemos ver. Ao voar eu sei que não posso levantar o
avião sozinho, mas consigo voar. Eu aprendi que há um
princípio de aerodinâmica. Nós pilotos não podemos
ver este princípio de aerodinâmica, mas nós confiamos
nele. As pessoas que voam confiam neste princípio.
Quanto mais confiamos, mais sentimos liberdade,
felicidade e temos uma perspectiva maior daquilo que
somos.
Eliane de Araujoh -
Por favor, uma mensagem para o Brasil.
Richard Bach -
Estou muito feliz, embora não entenda uma palavra de
português, estou muito feliz de poder estar aqui. Porque
esta é a comprovação de que há pessoas em todo mundo
que compartilham das mesmas idéias, que sorriem das
mesmas coisas, que choram pelas mesmas coisas e gostam
das mesmas coisas. Possuem as mesmas idéias. Estas
pessoas podem estar separadas fisicamente, mas estão
conectadas espiritualmente. Estas pessoas são parte da
mesma família. Fico muito feliz em saber que não estou
só, e que aqui, como em todo mundo, há pessoas que
pensam a mesma coisa que eu. E para todos aqueles que se
sentem deslocados, fora do mundo, saibam que não estão
só. Há pessoas em todo o mundo que tem a mesma
sensação. Somos todos parte de uma mesma família
espiritual, todos conectados.

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