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A Força dos Nossos Pés

Desde o dia em que tu
nasceste, eu criei a ilusão,
dentro de mim, que poderia
caminhar por ti.
Imaginei que colocaria teus pés sobre os meus e te
levaria pelos caminhos que eu julgasse mais tranqüilos e
seguros. Dessa maneira, tu nunca feririas teus pés
pisando em espinhos ou em cacos de vidro e jamais se
cansaria da caminhada, nem mesmo precisarias decidir qual
estrada tomar.
Isso seria eternamente minha responsabilidade.
...e foi assim durante um bom tempo, caminhei por ti,
para ti.
De repente, o tempo veio me avisar bruscamente que essa
deliciosa tarefa não faria mais parte dos meus dias.
Teus pés cresceram e eu já não conseguia mais
equilibrá-los em cima dos meus, daí quando eu menos
esperava eles escorregaram e alcançaram o solo.
Hoje sou obrigada a vê-los trilhar caminhos nos quais os
meus jamais os levariam e ainda tento detê-los
insistentemente, mas só raríssimas vezes consigo. Agora
só me é permitido correr com os meus junto aos teus e
em certos momentos teus passos são tão largos que quase
não posso acompanhá-los.
Atualmente, assisto aos teus tropeços sempre pronta
para levantar-te das tuas quedas.
Por vezes, tu me estendes as tuas mãos em busca de
socorro, outras, mesmo estando estirado ao chão e
ferido, insistes em levantar-te sozinho por puro orgulho
ou para me provar que já és capaz de erguer-te após
teus tombos e curar-te de tuas próprias feridas.
Assim vamos vivendo e sinto uma saudade imensurável
daquele tempo que precisavas de mim para conduzi-lo, pois
era bem mais fácil suportar teu peso sobre meus pés, do
que sobre meu coração.
No entanto, já consigo compreender como a vida é
sábia. Percebo, finalmente, que em algum momento tu
precisaste mesmo desbravar teus caminhos independente de
mim...
...como eu, é provável que tenhas que fazê-lo com mais
alguns pés sobre os teus, os dos teus filhos. Não,
claro que não é uma tarefa fácil, mas se eu consegui,
tu também conseguirás porque plantei em teu coração o
melhor e mais poderoso aditivo para que suportes tanto
peso: o amor!
Dedicado às minhas filhas:
Alessandra e Vanessa
Autora: Silvana Duboc - 10/03/2003 |